Barrado na Porta do Motel

Quem nunca teve uma recaída após o termino de um namoro? Muitos já tiveram e eu sou um deles com certeza. Mas a história que vou contar, apesar de ter acontecido em um Motel, não relata nada sensual, pornográfico, intimo ou se quer compromete alguém, além de mim mesmo claro, afinal aconteceu comigo e vou compartilhar com vocês.

Se não me engano era domingo e iria para o aniversário de um amigo, que por coincidência, também era amigo de uma ex-namorada minha. Nossa relação, minha e da ex, era muito tranquila e depois que terminamos ficamos um tempo vivendo uma amizade colorida, quando dava saudade a gente se falava e combinava de encontrar, algumas vezes ficava no bate-papo e outras a gente partia para o vamos ver.

Neste dia, após uma tarde juntos com nossos amigos resolvemos emendar, aproveitar mais um pouco a noite porque realmente não estávamos cansados e nem com sono e queríamos conversar, por o papo em dia, essas coisas. Fazia calor no dia, estava abafado e no caminho da casa dela sugeri uma parada no Motel, sabe como é, o papo estava legal, meu carro era popular e não tinha ar, então pensei, vamos terminar nosso assunto em um lugar que tenha pelo menos um ar-condicionado, assim a gente conversa sem ficar transpirando e tal. Ela topou.

O papo estava tão bom que até esquecemos da hora, quando percebemos era quase 2 da manhã e no outro dia ambos tinham que pegar serviço cedo. Pagamos o cafezinho e refrigerante que tomamos, os pastéis que comemos e fui deixá-la em casa. O Motel não era longe da casa dela, mas também não era ali na esquina, andei uns 20 minutos e nos despedimos em uns 10 , então, quando sai da porta da casa dela devia ser umas 02:25 da manhã de segunda-feira. Beleza, jovem é tudo de bom, dormiu 2 horas esta novo, ainda mais depois de um papo agradável.

No caminho de volta o carro começou a se comportar de forma estranha. Assim que peguei a avenida principal e acelerei o carro ele falhou, deu uma apagada como se tivesse rolado uma falta de energia (igual da cemig) e voltou, nem morreu, achei estranho mais borá lá. Os vidros estavam abertos, pelo horário sempre deixava aberto para evitar dormir ao volante, o vento frio ajuda a ficar acordado.

Chegando próximo ao Motel que eu havia praticamente acabado de sair de lá, uns 120 metros antes, o carro tornou a apresentar o mesmo problema mas dessa vez apagou geral. Na hora eu gelei e senti aquele frio na espinha. Poderia ser uma coisa boba, mas era mais de 2:30 da manhã e onde o carro apagou de vez tinha uma descida com um quebra-molas, uma rotatória, uma subida leve (esse percurso tinha uma iluminação precária, era bem escuro) e após uns 10 metros a rua que dava acesso ao Motel (onde tinha iluminação). Não pensei duas vezes e deixei o carro ir no embalo (a noite e de madrugada eu estava andando bem), torcendo para que o carro realmente parasse próximo ao Motel, senão eu estaria no bico do urubu, dentro dele né, por causa do breu.

Dito e feito, o embalo do carro me ajudou a descer, pular o quebra-molas, subir e parar em frente a rua do Motel, bem próximo ao poste de iluminação. Tentei virar a chave e nada, nem se quer um ruído. Abri o capo apenas para constar, não entendo nada de mecânica, mas queria averiguar se não era um cabo de bateria solto, por exemplo. Não achei nada. Tinha que dar um jeito de pelo menos fechar o vidro para ir buscar ajuda, caso contrário, poderia ser saqueado.

Pensei em chamar o reboque ou ligar para alguém pedindo ajuda mas o telefone celular estava sem bateria, e eu havia esquecido a bateria reserva em casa, isso mesmo, bateria reserva. (gente, na época celular bacana era o elite e o top era o star tack, ambos da motorola, o meu era um daqueles PT 550, famoso tijolão, que estava na cintura, com a bateria sem carga. A essa altura era a única arma que eu tinha em mãos). Como estava em frente ao motel, resolvi ir até lá para pedir ajuda e ver se o porteiro poderia ligar para algum socorro para mim. Agora começa o martírio da noite, achei que não estaria aqui para contar essa história.

Não me perguntem como, mas acionei o alarme e o carro deu um bip, subiu os vidros e trancou. Pensei, estou salvo, se o alarme funcionou agora pega né. Abri o carro no alarme e fui mais que depressa colocando a chave na ignição e…e…e…nada, o sinal de energia era muito fraco e não dava partida. Fechei o carro na chave dessa vez, os vidros estavam fechados e voltei ao plano de atravessar a rua e ir até o Motel.

Como bom pedestre, olhei para os dois lados e vi que um carro se aproximava no sentido contrário que eu estava, ou seja, do outro lado da rua. Esperei ele passar para atravessar e vi em câmera lenta que era uma dessas Blazers da polícia e com exceção do motorista, todos estavam com as armas para fora do carro, que vinha trafegando lentamente sem a sirene e o giro-flex ligado. Demorei uns 5 segundos para processar a informação que talvez a policia pudesse me ajudar, porém, como fui meio lerdo o carro deles já havia de distanciado e estava descendo o morrinho que subi e chegando na rotatória. Vi as luzes de freio acenderem e os policiais descerem no exato momento em que coloquei os pés na calçada do outra lado. Segui até a entrada do Motel que fica a uns 10 metros da esquina.

No segundo passo que dei, escutei barulho de pipoco e tiro para tudo que e lado, olhei para esquina e só via clarão, barulho e gritos. Imediatamente corri até a guarita de entrada do Motel. O vigia/recepcionista ou sei lá o que era aquele (*&¨%%#) ser sem mãe, já estava com os portões trancados e encolhido no cantinho da guarita. Pedi pelo amor de Deus para me deixar entrar porque o bicho estava pegando na esquina. Ele disse que não podia. Comentei que havia acabado de sair dali, ele podia conferir, mas ele nem deu ideia e ainda disse que era improvável porque eu estava a pé e lá só entrava gente motorizado.

Expliquei em uma frase rápida, com a voz trêmula, porém firme: “_Caralho moço, meu carro quebrou, tá na avenida, na esquina do motel, olhe aqui para fora que o Sr. vai ver o carro”.

Ele disse: “_ Cê besta, vou por minha cara aí fora nada, o bicho tá pegando aí”.

Nisso passa um casal correndo na porta do Motel e diz: “_Se esconde, o pau tá quebrando na esquina, tiro para tudo que e lado e quem tá correndo ta tomando bala, eles tão vindo pra cá”. Não caguei porque não tinha bosta pronta, mas eu me mijei todo.

De novo falei com o cara da guarita: “_ Moço, preciso de ajuda pro carro, eu pago a diária do Motel mas deixa eu entrar por favor, preciso de um telefone”.

Ele disse: “_ Deixo não Sr, não sei se você é do bem ou do mal, aqui num entra, quer ligar tem um orelhão a 5 metros da esquina, virando a esquerda”. Ele ainda jogou duas fichas para mim. Se esse sujeito não estivesse trancado na guarita eu juro que enforcava ele ou dava-lhe uma porrada com meu telefone. Pelo menos a esquerda era sentido contrário da confusão.

Desci a rua novamente até a avenida, puto e xingando meu carro de tudo que é nome. Não podia ter quebrado em outro lugar, tinha que ser logo ali e naquela situação cabulosa.

A medida que ia chegando na esquina, escutava os barulhos da confusão e os tiros comendo solto. Agachei e como os zunidos de tiro não paravam acabei me arrastando até o orelhão. O único telefone que sabia de cabeça era do meu irmão que morava próximo a UFMG. Liguei para ele e a medida que explicava o que estava acontecendo, os pipocos aumentavam e eu largava o telefone e pulava no chão. Quando pegava o telefone novamente ele me perguntava: “_Isso foi tiro?” Eu falava que era e pulava no chão de novo. Por fim disse que ia tentar chegar na casa dele, com ou sem carro. Desliguei e fui em direção ao carro.

Chegando no carro, abri rapidamente e pulei pra dentro. Em uma ultima tentativa já desesperado com toda aquela situação, virei a chave e o danado pegou. Acho que até o carro ficou com medo ou com dó de mim, não sei ao certo, só sei que foi assim e sai dali cantando pneu e o mais rápido que podia. O carro parou novamente na entrada da UFMG na Antônio Carlos, tranquei ele novamente e segui para o apartamento do meu irmão que era próximo. Correndo claro, ainda estava assustado com o ocorrido.

Depois de um copo de água, relaxado, contei a ele o que havia acontecido e liguei para minha mãe avisando que ficaria por lá, que o carro tinha quebrado e mais nada, senão ele ia ficar louca e preocupada atoa. No outro dia chamei o reboque e resolvi o problema do carro, só não voltei para dar uma surra no cara do motel porque ele foi gentil e me deu as fichas para ligar para o meu irmão.

Que noite maluca. Sai mais algumas vezes com essa ex-namorada e nunca mais parei nesse motel e nem deixei ela em casa altas horas da noite. Gato escaldado tem medo de água fria.

 

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COMMENTS

  • Orlando Caetano Filho

    Só você mesmo… Qualquer dia, no au-au (hoje não vai dar pra ir) eu conto a história de quando eu desci pra encarar 2 seguranças de um motel, um com um 38 e o outro com uma 12. Cheguei a bater no peito de um. rsrsrs Tudo com a mina do lado, morrendo de medo e vergonha. Por causa de 1 real… rsrs

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